Diário de um Manequim em Pensamentos #01

     Dia de Sol, dia para apreciar. Hoje tive o prazer de me afogar no brilho do reflexo do sol. Mesmo não estando na vitrine, por dentro da loja eu pude receber o reflexo do sol que batia no para-brisa de um carro.

    Eu carregava uma armadura de fantasia, feita de couro marrom desbotado, com botões tortos e quase soltos no meio. Ainda que eu quisesse apertar mais aquilo, tinha medo que rasgasse antes de alguém o comprar. E mal dava para respirar pois a calça de veludo era apertada demais para um adulto. Sabe-se lá quem ia comprar aquilo mas eu me senti em uma dessas convenções de fantasia. Um verdadeiro camponês ou protagonista de aventura ainda no nível 1.

    E mesmo todo trajado, tudo que eu via eram carros e prédios, cidade moderna e luzes de LED. Porém, ao receber tal reflexo solar, olhei diretamente a ele, fixo, e pude deixar que aquela luz penetrasse a íris por completo. Ao fixar meus olhos, desprendi minha atenção do resto e mesmo de olhos abertos, passei a sonhar.

    Logo me vi em um campo aberto, correndo enquanto o sol ardente e o vento refrescante equilibravam a temperatura de meu corpo. O traje desbotado era o mesmo que usara na loja. Mas agora não havia cidades ou carros. Apenas carroças, cabanas de madeira protegidas por palha em seu teto. Ao fundo pude notar morros enormes e castelos. O som de um violino estridente tocava meus ouvidos e uma batida melódica e alegre davam a profundidade que me prendia a este novo mundo. Teria eu deixado de ser apenas um manequim e passado a ser um humano nos tempos antigos? 

    Andei um pouco por aquele local e logo veio mais conjuntos de casas e oficinas, até mesmo comerciantes passavam com suas carroças carregadas de repolho, batata e qualquer outro tipo de legume. Tudo muito alegre, divertido e estranho. E não demorei muito para me enturmar e até mesmo dançar ao som de um alaúde na taverna. Foi divertido.

    Passado uma tarde, estava deitado sobre as campinas verdes enquanto o vento sibilava e o sol se ponha. E o céu azul e límpido me davam a calma que eu tanto buscara, com exceção daquela nuvem. Aquela triste nuvem que ousou tirar o sol do meu campo de visão, e quando menos esperava, lá estava eu, no fundo de uma loja novamente.

    O carro havia ido embora e não recebi mais aquele reflexo. Triste não?

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