1 Versão: Desespero em South Rivers
Bom dia, meu caro leitor, vou lançar aqui mais um texto que tenho escrito porém ele eu considero estar na primeira versão, pois ainda quero me aprofundar nesse estilo de terror.
Então segue mais uma história para vocês! :D
Certa vez, conheci em uma praça, um homem magro e pálido, com vestimentas surradas e que carregava em seu rosto, a expressão do medo e da falta de esperança na humanidade. Ele tentava contar o que vira a todos, mas logo ganhou a fama de ser mais um louco que vagava por ali.
Sentei-me a sua frente e esperei que começasse sua história. Puxei meu velho alaúde e fiquei dedilhando ao leve som da brisa, tentando transformar aquela história em uma nova canção.
Ele fixou seus olhos cinzentos, arregalados e fundos sobre mim e despejou suas gotículas de conhecimento histórico e próprio. Logo no início notei que ele dizia coisas desconexas, então tentei entender os significados por trás de cada frase.
“Eu fui vítima do massacre de South Rivers. É verdade. Maldito vilarejo. Quem me dera poder ter nunca conhecido aquele lugar.
Era rico em beleza natural. Muitas casas feitas de uma alvenaria robusta e simples, outras mais abusadas, gabavam-se de estruturas amadeiradas e rígidas. Suas pequenas vielas, cerca de uma ou duas, eram completamente tomadas pelo doce aroma e beleza das pétalas sobressalentes das cerejeiras.
Que lugar maravilhoso! Deleitei-me de alguns dias sobre uma pousada, mas logo comecei a construir minha pequena e aconchegante morada. Não precisei mais do que dois cômodos e logo, consegui um trabalho como carpinteiro. Era inexperiente, mas já havia garantido alguns trocados.
Ó esplendor, daquela pequena morada diante do vilarejo da paz! As grotescas campanhas feitas entre os Cavaleiros de Torkson e a Ordem da Libertação Arcana, passavam no outro lado do vale, e desta guerra, nós só sentíamos o eco carregado de sofrimento, angústia e morte que viajava até os ouvintes mais aguçados. Quanto aos aventureiros, apenas repousam por uma noite ou duas, e logo seguem seu rumo, hora para as cidades da fronteira, hora para as grandes florestas do sábio Jonkle.
Entre os devaneios da loucura que agora me assombra, sinto apenas a jovem e bela força espiritual que emana de uma dama que trabalhava nos jardins, cuja qual feições e fisionomia não marcam presença em minhas recordações. Ao que posso instigar para esta história, foi ela quem me apresentou ao culto religioso feito a cada semana.
Eu não era um cara muito religioso, sempre me senti abandonado pela santidade. Mas, atraído pelo doce pedido que me fora feito, cedi um pouco e comecei a participar. Todos do vilarejo eram engajados e bem assíduos quanto as sessões.
As rezas eram diárias, e sempre pediam pela benção do impaciente e misericordioso deus da virtude e da prosperidade, e nunca me chamaram tanto a atenção. Mas durante as sessões, aqueles cânticos angelicais tomavam forma e força, e pressionavam o ambiente de modo com que de fato, tal divindade estivesse em meio ao grupo.
De xamã ou guia para este pequena e completa união de espíritos, assumia uma velha senhora, com perceptíveis e não escassos traços que denotavam muitos de seus árduos anos de vitalidade. Tudo que soube é que ela já viajou por muitos lugares, então era ciente e devota de uma antiga magia rúnica.
Em cada sessão, era então formado uma roda. Lembro-me bem da primeira vez que participei. À minha direita, estava a elegante jovem da qual já comentara. À minha esquerda, um velho lenhador que murmurava orações pelo filho que fora alistado para as tropas de Torkson, e estava nos campos de batalha.
De mãos dadas, recitávamos algumas orações, que por inexperiência, eu despejava de forma assíncrona. Mas rapidamente, havia alcançado o ritmo dos demais.
Depois de orar, a velha senhora adentrava o centro do grupo e proferia diversas palavras desconhecidas, em uma linguagem não nativa, agressiva como se buscasse expurgar nossa consciência. Juntos, seguíamos seus comandos. As ondas que circulavam eram carregadas de sentimentos e pensamentos, e nós, flutuávamos em harmonia sobre. Unidos, todos agora recitavam as mesmas palavras dela, no mesmo tom, como se apenas uma voz cantasse a mais bela ópera em oferenda aos deuses.
Quem comandava era uma senhora que usava de artifícios mágicos para nos guiar durante a transe, e facilitar o encontro espiritual.
Quando busquei a paz interior, apaguei. Acordei horas depois, a noite, em minha cama. Senti leves dores em meu torso e membros, e mal me recordo do que houve naquela tarde. Só sentia algum pudor estranho e negativo vindo de minhas entranhas.
Continuei minhas rotinas no próximo dia, como de costume. Mas sentia que me faltava algo. Porém tudo parecia tão normal. Estive na próxima sessão e nas outras subsequentes. Em todas eu acordava com dores, gradativamente piores, mas tudo ainda era normal.
Certo dia, relutei e tentei fugir daquele estado espiritual e descobri algo horrível. Quando todos os membros perdiam a consciência, se tornavam agressivos e passavam a lutar uns com outros. Cada golpe de machado era um braço a menos, cada corte de faca era a libertação das tripas e órgãos de outrem. Um verdadeiro festival de carnificina humana. Feita pelas próprias vítimas.
Ao fundo, reparei na senhora que nos abençoara com tal transe. Ela se alimentava dos sangues que escorriam daquela sangrenta batalha e regozijava com excelentes e amedrontadores risos infernais.”
Acho que ele era louco, afinal, como teria sobrevivido a algo assim?
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